domingo, 20 de setembro de 2009

Reflexões para um sábado a noite...

Minha preocupação com alguns fatos que vivo por aqui é tão inútil... Depois que voltei e que me deparei com minha maior dor, tudo que tenho tentado fazer é me encaixar numa vida que não é a minha, uma tentativa boba de fingir normalidade, mais um engodo.
Simplesmente não caibo mais nas roupas que vestia quando tinha dezesseis ou dezessete anos. Não adianta ligar para T., F., A., ir a festas com B., frequentar os velhos lugares e ficar procurando os velhos rostos, eles simplemente não estão lá, ou se estão, mudaram tanto quanto o meu, e o passado não adianta reeditar. Foi bom, foi divertido e durou o necessário, depois eu parti para uma vida diferente, encontrei coisas melhores e coisas piores, mas a vida aconteceu e continua acontecendo dentro de mim.
Este momento é uma pausa, uma parada para entender... E hoje entendi tanto. Entendi que o tempo não volta atrás, que relações construídas sob a areia são frágeis e podem nos desabrigar a qualquer momento, e é bom ter cuidado, e há coisas que talvez não carecem falar, a menos que seja perguntado.
Lembrei-me, num insight, de um presente que recebi da minha mãe, que outro dia encontrei aqui guardado no closet da vovó, era um pequeno ponei, que no passado era montado por um principezinho, que se perdeu com o tempo, mas aquele cavalinho continou por aqui, guardado me esperando, talvez como o amor dela, não exatamente como imaginei que seria, mas como pode ser... Talvez minha mãe realmente tenha me amado, talvez essa seja a única justificativa para que eu esteja viva depois de tudo. Talvez Deus tenha tentado me ajudar a entender isso todo esse tempo, mas eu sou uma filha teimosa. Talvez esse seja mesmo o meu modo, talvez errar seja meu modo de aprender, mas não posso odiar meus erros, eles são minha única chance de acertar.
Talvez eu sempre tenha sido apaixonada pelas ilusões, aquelas que fazem crer apenas no que se pode experimentar com os cinco sentidos básicos, pois precisa-se ver, sentir, tocar para acreditar, no que, muitas vezes, não é real.
Naquele que posso intitular o pior dia da minha vida estive cercada de pessoas, que diziam coisas programadas, que me abraçavam mecanicamente, muitas delas até com carinho e compadecimento... Mas naquele dia duas pessoas estavam comigo. Ele quieto, calado, mas me oferecedo seu amor em singelos gestos. Ela falou comigo ao telefone, foi a única a entender o que eu estava sentindo, e por telefone (sem ver, sem estar presente, sem tocar) me deu o mais caloroso abraço, quero que ela saiba disso, que me deu o melhor abraço naquele dia escuro e trouxe um pouco de luz à minha escuridão.
Isso só me prova que tenho acreditado em ilusões, em ficções por muito tempo. Não é doloroso estar só, embora o melhor de mim se faça quando posso doar algo a alguém, doar de verdade, sem esperar contrapartida. Não importa que eu tenha cometidos erros, embora não possa mudar nada que passou, o futuro está a minha disposição para fazer algo melhor. Embora eu sempre tenha adorado a presença física, a voz, a proximidade daqueles que eu amo, o verdadeiro amor continua sendo eradiado, e só se deixa de percebê-lo se cortar os 'fios' e trancar o coração, há muitos meios de torná-lo embotado, como por exemplo perceber apenas pelos cinco sentidos básicos, quando na verdade o mais verdadeiro acontece a revelia deles.
É natural que eu caia diante de antigos vícios, mas aos poucos sinto o nascimento de uma nova razão, que tem mais a ver com sensitividade do que com racionalidade. E por isso não carece de explicações meticulosas. Não se sente meticulosamente, o sentir é inteiro, sem frações, sem compartimento, é sempre cheio, o que se pode dividir em átomos é só a racionalidade.
Sinto uma enorme gratidão, por tudo que aconteceu nesses últimos vinte e sete anos, porque é tão cedo, ainda há muito que viver, e a chance de fazer melhor me enche de esperança. Afinal ser assim tão imperfeita é a garantia de que essa vida tem sim um enorme sentido.
CSD./

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Meu exercício preferido

Já estava com saudades de escrever... Fazia algum tempo que não nos encontravamos eu e a tela branca, ansiosa por letras, mas hoje nos reencontramos, engraçado ser justo hoje, ainda pouco ouvi um barulho tímido na janela, corri pra ver, e era chuva! Chuva, Chuva, Chuva!!! Saudades dela, havia três meses que ela não aparecia por aqui, e a terra clamava por ela, tudo estava tão seco, mas a chuva tudo fecunda, até o meu desejo de escrever.
Tudo está a um passo de mudar mais uma vez... Ainda não sou uma adoradora das mudanças, mas agora já resisto menos a elas, não porque gosto, é porque descobri que dói menos assim. Prefiro abrir a mão e entregar, de outro modo me seria arrancado, afinal é assim que acontece, a dinâmica das coisas que jamais entenderei.
E é com uma espécie de saudade de tudo (aquilo que foi bom e que não foi) é que olho por uma janela, o único sentido funcionando é a visão, não escuto nada, e as pessoas não me veem, mas eu enxergo todos os gestos mudos, os corpos cheios de expressão, e nada mais é dissimulado...
As palavras são capazes de elaborar os grandes tratados sobre a mentira, a invalidez, o nulo, a perfídia... Como as palavras fazemos as maiores negociatas conosco e com os outros, nada que sai de uma boca é verdade quando justifica, a verdade é qualquer outra coisa, e o que se fala não se sente, os sentimentos são incomunicáveis, os sentimentos quando muito apenas se versejam, puros e intocados.
Mas a humanidade continua querendo falar... E palavras mentirosas se dizem aos pais, aos amigos, ao analista. A verdade está quieta, muda, incólume, esperando que um dia se tenha coragem para olhá-la. A verdade quase sempre está longe da beleza, por isso é tão difícil encará-la.
Melhor não ouvir as justificativas, nem as nossas e nem as dos outros, melhor é continuar a observar pela janela, em silêncio...
CSD./