sábado, 17 de janeiro de 2009

'Tratadinho' de minhas pequenas verdades

Iniciei uma nova incursão literária, em que pretendo descrever as minhas pequenas verdades extraídas da vida, do alto da compreensão magnífica de meus 26 anos… Se estou sendo sarcástica? Um pouco, faz parte de minha personalidade ácida, nascida após a morte de algumas ilusões. Irei lançando os temas em forma de sentenças, uma a uma, as quais trarei de discorrer sobre, breve e singelamente, já que se trata de um pequeno tratado.
Eis a primeira:

Ter a confiança das pessoas é diferente de ter o seu amor:

Obter a confiança de alguém não é tarefa fácil, porém o caminho mais simples é a responsabilidade, o comedimento, o usual e comezinho bom senso, e ser a figura do apoiador.
Apoiador é aquele sujeito capaz de numa inundação, num desastre natural, permanecer ao seu lado dando-lhe tudo que precisa, tirando de si para lhe proteger e lhe salvar.
O apoiador vai te ajudar a arrumar um novo emprego, vai elevar sua auto-estima, vai ficar ao seu lado mesmo que em silêncio te velando e te protegendo, ele toma seu partido, toma seus problemas no colo. Ele é um ser servil, cresceu ouvindo a história japonesa da lebre, peço permissão para contá-la: alguns animais da floresta ajudam um lenhador faminto, o urso lhe trás um peixe, que conseguiu pescar com suas habilidades inatas, a ágil raposa lhe trás um cacho de uvas bem maduras, e a frágil lebre que nada poderia lhe oferecer, se joga no fogo e lhe dá a própria carne em sacrifício.
Quem foi o ser humano que contou pela primeira vez essa história? Ela é cruel, nos faz internalizar um padrão de doação ilimitada aos outros, que nos remete a uma vida de concessões além dos limites saudáveis de troca, disto falaremos mais, quando do desenrolar de outras de minhas verdades. Enfim, é este ser, o apoiador, capaz de se tornar o grande amigo confiável, alguém em que se possa contar para as adversidades da vida, alguém a quem confiar qualquer compromisso, obrigação, objeto, pessoa, ideal. Ele vai levá-lo a cabo por sua própria natureza.
O apoiador sempre terá muitas pessoas ao lado, todas muito interessadas em sentir a segurança deste ser perseverante, deste ser que se doa sem pensar, mas que, contudo, inconscientemente espera reciprocidade, aliás, não só reciprocidade, o apoiador é o que é porque deseja amor, deseja ser amado.
E ter a confiança das pessoas é bem diferente de ter seu amor… O apoiador ‘compra’ a confiança, o respeito, o seu status, afinal ele está sempre ali na sua lida diária, cultivando, regando suas afeições, ele é sempre tão gentil e cativo, difícil não destinar a ele um olhar afetuoso, mas amá-lo, é outra coisa.
Este ser parece não ter a capacidade de despertar amor, desperta outros sentimentos, mas não amor, como despertaria amor alguém que está pronto para se abandonar em favor dos outros, o apoiador é o exemplo de morte do amor próprio, sem o qual o amor dos outros não é possível.
Estranha verdade, desorientadora e real, o apoiador não consegue se amar, ele tenta, busca, se cuida, mas infelizmente não se ama, ele tão acostumado a ser a lebre, quantas vezes se atirou no fogo para servir de banquete, que alimentou e renovou alguém, que após satisfeito seguiu seu caminho, todos eles sempre seguem, aqueles que necessitam do apoiador, sanada a situação, a sazonalidade partem em busca de suas vidas.
O apoiador inerte vê a partida como mais um abandono, como mais uma rejeição para sua coleção, sem entender que o grande responsável por isso é ele mesmo.
Não se pode dar aquilo que não possui, não se pode ser simplesmente para se dar. Se doar faz parte de nossa natureza, mas o que não se deve fazer é entregar tudo e quedar vazio.
Se o apoiador conseguisse entender que todo ser humano é irremediavelmente sozinho, se entendesse, que solidão humana nenhuma união jamais ameniza, deixaria a sua busca desesperada por aquilo que nunca chega, por aquilo que nunca terá.
E se isso fosse simples eu fecharia meus olhos e não escreveria mais nenhuma palavra, sentiria o amor brotar sobre as pedras das calçadas e alcançar o coração ferido, curando-o.
Mas eu não sei o que é isso, eu só tive a confiança sinalagmática das pessoas, o amor é diferente.

CSD./

2 comentários:

Anônimo disse...

Triste mas 100% verdade. O coelinho tem boa vontade mas termina assado e esquecido. O amor nasce originalmente de dentro de nós por nós. É preciso se amar inicialmente, pra saber o que é o amor e então reconhecê-lo no outro.

CDP./ disse...

Nem vou falar do quando eu gostaria de entender emocionalmente tudo isso... Vou me preocupar só em viver, afinal de contas dizem que isso ultrapassa todo entendimento...